um novo texto todas as terças, quintas e sábados.
há cerca de três anos escrevi o primeiro de cinquenta e cinco contos que viriam a compor aquele que seria o meu primeiro livro: o descompasso de um peito desfeito.
um ano depois do seu término reencontro-me com as suas páginas e todas as palavras me surgem inquietantemente diferentes, mas, ainda assim, minhas.
é por essa razão que abro mão de uma desadequada publicação em papel e as partilho aqui, convosco. aguardarei todos os vossos comentários com curiosidade e comoção.
desejo-vos uma boa leitura. obrigado.
por detrás das mãos
Lá em cima o céu branco beija o rosa-doce das nuvens. Mais para baixo, o chão azul deixa reflexos de alegria e sorrisos, enquanto, à volta, uma estranha felicidade invade as árvores de papel, os pincéis floridos, os lápis de cor a correr aos pulinhos par a par com os lápis de cera.
Tu estás mais à frente, escondida atrás das mãos (como quem não se quer esconder), então eu chego-me para mais perto de ti e toco os teus pulsos: "Vá, deixa-me ver os teus olhos" pensava para mim mesmo. Mas não deixaste e então beijei-te as mãos de algodão. Agora, com o teu rosto a descoberto sorris-me de volta, corada, doce. E eu sorrio porque és linda e envolvo-te nos meus braços enquanto te tentas por em bicos de pés para me beijares a testa, devagarinho, como só tu sabes.
E então olho-te nos olhos, vejo-nos e deixo-nos assim, nos braços um do outro.
deuto nocturno
Se as palavras aparecerem hoje vou deixá-las ficar a olhar-me enquanto durmo, para amanhã acordar e tê-las à minha cabeceira. Sabe sempre melhor acordar com as palavras ao meu lado. Sei sempre o que dizer. Fico com respostas, agarro-me a elas e assim quando me vires passar já tenho o que te dizer, como te olhar e o que sinto vai fazer sentido. Tudo faz sentido quando as palavras acordam do nosso lado, já reparaste como é fácil dizer tudo o que sentimos quando não acordamos sós? Quando a cama está quente ao nosso lado, com o cheiro e o sabor na boca de uma noite que passou mas que fica vincada na pele. Crava-se o cheiro no meu corpo (que já não é meu, de tão nosso que se tornou a noite passada), rasga-se o ar húmido a cada pulsação ainda tão viva, de nós, sempre tão cheio de nós, meu amor. E a rádio deixou de tocar a nossa música. Já só faz sentido o teu roçar em mim, quando passas por mim e levantas a cabeça, os olhos aparecem entre os cabelos e nesta noite, pude cheirá-los e sentir que vais estar comigo para sempre. Mas afinal o que interessa a rádio, basta sussurramos ao ouvido cada letra do fundo, lembraste? Saber que a música sussurra em nós sempre que me deito, e acordam então as palavras ao meu lado, tão tuas, tão minhas. Deixam de pertencer à velha gramática e fazem agora sentido na nossa pele, no nosso abraço, na nossa casa. Somos música que nos basta e que nos vence, mas que chora quando nos separamos. Chora a nossa música e nós choramos com ela, mas sabes que mais? Vamos ser sempre nós. Chega de choros, hoje somo em uníssono mais do que nunca. Fica comigo, meu amor.
Escrito a duas mãos: polly maggoo e luís belo.