um novo texto todas as terças, quintas e sábados.
há cerca de três anos escrevi o primeiro de cinquenta e cinco contos que viriam a compor aquele que seria o meu primeiro livro: o descompasso de um peito desfeito.
um ano depois do seu término reencontro-me com as suas páginas e todas as palavras me surgem inquietantemente diferentes, mas, ainda assim, minhas.
é por essa razão que abro mão de uma desadequada publicação em papel e as partilho aqui, convosco. aguardarei todos os vossos comentários com curiosidade e comoção.
desejo-vos uma boa leitura. obrigado.
com música de fundo
"Agora diz-me coisas sem nexo", enquanto isso deixa-me brincar com o teu joelho, esse coberto com o pijama macio. Deixa-me lá ser pequenino outra vez e fazer dos meus dedos pernas de alguém, fazer do teu joelho uma montanha de algures. Que hoje tenho sono e os ouvidos zumbem, que hoje a luz está a meio e eu quero ser criança outra vez, deixa-me.
Começa a sussurrar-me palavras sem nexo, porque nexo nenhuma palavra tem e hoje o sentido perdeu-se-lhes mais do que nunca.
Assim é bom, sou criança outra vez.
(Para a Joana, que me deu de dormir e me deixou ser criança outra vez.)
o 8.
Descobri-lhe o segredo, pô-lo a nu, vi-lhe a finitude. Basta vê-lo dormir, deitá-lo sobre ombro e sorrir, deixar que nos sorria de volta, (os oitos sorriem), então, aprecio-lhe as curvas por debaixo dos lençóis.
Lá, no mundo dos números há camas de alfinetes e lençóis de lã. Lá, naquele mundinho de letras também, há beijos de exclamação, bebidas de ponto e vírgula senhor doutor e abraços sem reticências.
Lá, no mundo do oito, ele deita-se e revela-se infinito.