um novo texto todas as terças, quintas e sábados.
há cerca de três anos escrevi o primeiro de cinquenta e cinco contos que viriam a compor aquele que seria o meu primeiro livro: o descompasso de um peito desfeito.
um ano depois do seu término reencontro-me com as suas páginas e todas as palavras me surgem inquietantemente diferentes, mas, ainda assim, minhas.
é por essa razão que abro mão de uma desadequada publicação em papel e as partilho aqui, convosco. aguardarei todos os vossos comentários com curiosidade e comoção.
desejo-vos uma boa leitura. obrigado.
uma passagem qualquer
Deixam-se correr apressadas, enquanto foge o tempo pelo fio das luzes-pisca-pisca, rebola então nas bolas de Natal para se tornar o frio que escorre no rosto.
Hoje é mais um dia dos trezentos-e-não-sei-quantos que se contam pelos dedos de uma mão, mas por aí insiste-se numa passagem qualquer. Não desgosto, dá gosto ver um ou outro sorriso inocente e esperanças renovadas. Fosse assim todos os dias e seria bem melhor. Não me vou queixar, antes assim que nada.
Já eu vou fazer mais do mesmo, enquanto espero secretamente por aqueles sorrisos de me fazer sorrir também. Sorrisos de sempre, espero.
Queria só escrever uma última qualquer coisinha este ano e agradecer a quem me acompanhou. Agora vou renovar-me também sem motivo nenhum.
De sempre?
Sim, de sempre.
cócegas
Lá estava de novo o menino sentado ao cantinho da sua cama tão pequenina quanto ele.
Já não era a primeira vez que o sentia. Gostava de saber porquê mas já não tinha com quem falar senão com a chuva que lhe caía agora sobre o pedaço de pano roto (o seu lençol dos dias secos). Então debruçou-se sobre as gotas que corriam até o seu trapo e sussurrou baixinho: "Porque é que faz cócegas?". Nem uma gota lhe deu gota de atenção, "Porque é que faz cócegas?" tentou outra e outra vez, cada e cada vez mais baixinho como quem espera que o som aqueça enquanto desvanece.
Nada. Com o frio a gelar cada vez mais, abraçou-se a si próprio sem réstia de esperança, fechou os olhos e adormeceu.
Acordou. Abriu os olhos para ver que, fora do seu caixote, a chuva ainda caía de levezinho. "Continua a fazer cócegas" pensava para si mesmo.
Pobre criança, falava em cócegas quando o que sentia era saudade e dor, nunca percebi bem o porquê daquele mal entendido... Julgo que um dia o menino terá ouvido alguém mais irónico dizer que as cócegas eram uma coisa feia, sem se aperceber que essa era uma mentira daquelas que nem nós levamos a sério.
"Porque é que faz cócegas?", pensava ele novamente como se o som que ecoava para dentro fosse tão natural como respirar... "Não gosto de ter cócegas", mais e mais uma vez. Até que, como vindo do nada, uma lambidela assaltou-lhe o rosto e cobriu-o de baba e sorrisos.
O menino sorriu também pela primeira vez em semanas de chuva. Reconhecia na perfeição aquela lambidela, tinha sido a sua única companhia durante anos e agora tinha voltado. O seu querido cão tinha voltado irrequieto como nunca, saltou-lhe para o colo e também ele falou de saudade e da dor da ausência. Também o cachorro, com as patas sobre o peito do dono, falou de amor e paixão.
O menino já podia ser feliz outra vez.