uma folha caída sobre o inverno

um novo texto todas as terças, quintas e sábados.

há cerca de três anos escrevi o primeiro de cinquenta e cinco contos que viriam a compor aquele que seria o meu primeiro livro: o descompasso de um peito desfeito. um ano depois do seu término reencontro-me com as suas páginas e todas as palavras me surgem inquietantemente diferentes, mas, ainda assim, minhas. é por essa razão que abro mão de uma desadequada publicação em papel e as partilho aqui, convosco. aguardarei todos os vossos comentários com curiosidade e comoção. desejo-vos uma boa leitura. obrigado.




e voltou a andar

A mesma folha, o mesmo quarto, a mesma música e ainda o mesmo cheiro, na mesma hora do dia seguinte. Mas os sorrisos… esses já não se ouvem e as cores já não correm. Correm antes incolores as lágrimas pelo rosto triste (aquele de criança que perdeu os seus rebuçados faz-de-conta.)
Perdi-me na mesma folha, no mesmo quarto, enquanto ouvia a mesma música com o mesmo cheiro do sempre. Mas ele luta, quer tanto ficar, meu amor… tanto quanto eu te quero abraçar.
Depois arranco sorrisos forçados como quem mente à saudade, mas já não sei mentir e o frio não engana. Foste embora e eu vou parar.
Paro.

Parei e o tempo voltou a andar.







as pessoas

Já faz tempo e as pessoas correm demais, (sempre demais, as pessoas).
Depois, o que resta para o papel são ainda menos que esboços do que corre. São traços de frio, de mau humor e restos d'alma. São pressas e minúcias de coisas de nada.
Ah! Cale-se o som dos passos-sapatos que a cidade quer fechar!

(Mas não fecha e vamos morrendo nela.)







pequena de longe

És pequenina ao longe, e eu sempre gostei de te espreitar pela janela, meu amor.
Sempre gostei de te ver sorrir e sorrir-te de volta. Sempre gostei de te beijar (assim, em segredo) e marcar os teus lábios com os meus.
Mas é frio, é frio o vidro que beijo e dói até às borboletas-fim-de-verão que chapinham bem dentro de mim…
Meu amor, dá-me só mais um pouco do teu sorriso e deixa-me saltar à corda também, contigo. Pode ser que a noite venha mais cedo, pode ser que as estrelas estejam simpáticas e dêem de nós o nosso sorriso.

E o silêncio das estrelas é o meu também, meu bem.