uma mão-cheia
A cidade era escura e nada propícia a devaneios fora-de-horas. As ruas convidavam a luz eléctrica à falta de cinzento e os caixotes de andares a contar do céu tinham gatos pretos esfomeados nas cinco esquinas cor de pouco.
Ela, pequenina, tinha nos olhos a inocência das flores e no sorriso o sabor cor-de-rosa do algodão doce. Sempre gostara de estrelas, pelo que vira na televisão, sorriam como os caracóis às joaninhas, mas por entre os caixotes apertados elas não existiam. Talvez por isso tenha pedido à sua mãe uma mão-cheia de estrelas-que-brilham-no-escuro, assim podia colá-las ao tecto do quarto e fingir o seu próprio céu.
Mas colá-las era outro problema, não sabia como o fazer, tinha medo de ficar com os dedos presos no tecto se usasse cola da papelaria dois quarteirões abaixo da loja das bonecas. Por isso, pegou no pacote de gomas que tinha por perto, mastigou-as, e fez delas cola.
À noite tinha finalmente um céu coberto de estrelas. E era tão bonito, poder adormecer com os olhos postos nelas. Olhou, olhou, não queria adormecer com medo de perder as suas novas amigas. Foi então que uma delas escorregou e caiu ao chão. Caiu outra estrela. Sem tempo para responder mais meia-dúzia de estrelas estavam a caminho do chão. Não tardou para que o chão fosse o seu novo tecto. Não se importou. Acabara de ver a melhor chuva-de-estrelas de sempre. Amanhã, voltaria a colar tudo de novo e esperar que elas voltassem a escorregar-se em direcção ao chão.
Porque gostava assim.