um novo texto todas as terças, quintas e sábados.
há cerca de três anos escrevi o primeiro de cinquenta e cinco contos que viriam a compor aquele que seria o meu primeiro livro: o descompasso de um peito desfeito.
um ano depois do seu término reencontro-me com as suas páginas e todas as palavras me surgem inquietantemente diferentes, mas, ainda assim, minhas.
é por essa razão que abro mão de uma desadequada publicação em papel e as partilho aqui, convosco. aguardarei todos os vossos comentários com curiosidade e comoção.
desejo-vos uma boa leitura. obrigado.
As tuas pálpebras fechadas são o mar adormecido; dos meus lábios - a minha boca a viver na tua.
um pedido
não fiques mais de três dias em cada lugar. não cries raízes em nenhum deles. dizem, ou brincam dizendo que viajamos para ficar. eu não quero a tua morada, mas quero saber dos teus passos. onde estiveste, que me levaste. podes um dia até voltar. talvez um dia voltes e eu esteja ao teu lado de novo, como se fosse hoje. mas leva-me sempre contigo. como se nunca te tivesse abandonado, meu amor.
Do teu olhar,
a tua respiração é a minha respiração a precipitar-se num beijo. Só não to peço, mas lês-me: o meu desejo - a minha boca na tua, a nossa boca. um resto de saliva nos meus lábios que seguram os teus lábios e as minhas mãos mais os dedos das minhas mãos sobre o teu rosto a dizerem beija-me de novo, és tudo o que existe.
fotografia
tenho pensado como seria fotografar amor - o amor existe. corri todas as ruas da cidade, olhei cada recorte de céu, experimentei todos os sabores.
hoje dos meus olhos senti amor e memorizei como se fotografasse: enquanto estava deitado sobre o teu peito; dos teus dedos cresciam folhas e os teus lábios diziam estórias de embalar.
sopra-me a nostalgia 42 minutos antes de partires.
tenho areia no olhar
tenho areia no olhar.tenho areia no olhar.tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no olhar.tenho areia no olhar. tenho areia no meu olhar, no meu olhar:
embrulhei em plástico todas as horas que te dediquei...
embaciado
No inverno respira sempre em pequenos suspiros. no verão também, mas quase nunca resulta. prefere o frio ao calor, esse dá-lhe demasiada dor de cabeça e as roupas parecem-lhe sempre muito leves ou curtas. prefere camisolas grossas. prefere que as roupas lhe pesem no corpo, gosta de se sentir muito aconchegado. gosta de, em segredo, vestir umas calças de ganga e por baixo usar outras também, as de pijama: dois pares de calças sem ninguém saber.
Ele gosta muito pouco de si, mas o que esconde debaixo das camadas de roupa mostra na respiração embaciada. deita o seu nariz sobre todas as janelas que encontra, talvez nem todas, mas pelo menos aquelas que lhe são simpáticas, ou assim lhe parecem: o seu reflexo nítido é a voz da janela. deita sobre ela o nariz e engole o ar gelado dos dias. respira. deixa que o ar se espalhe quente sobre o vidro da janela. depois, descalça a luva da mão esquerda e desenha: amor das coisas.