um novo texto todas as terças, quintas e sábados.
há cerca de três anos escrevi o primeiro de cinquenta e cinco contos que viriam a compor aquele que seria o meu primeiro livro: o descompasso de um peito desfeito.
um ano depois do seu término reencontro-me com as suas páginas e todas as palavras me surgem inquietantemente diferentes, mas, ainda assim, minhas.
é por essa razão que abro mão de uma desadequada publicação em papel e as partilho aqui, convosco. aguardarei todos os vossos comentários com curiosidade e comoção.
desejo-vos uma boa leitura. obrigado.
o espaço entre as coisas
Existe uma menina que é o espaço entre as coisas. Tem cabelos loiros e um nariz que lhe salta desproporcionalmente do rosto. Na sua voz, toda a ternura da pequenez.
Rita é o espaço entre as pessoas. Não gosta de viajar e o seu corpo franzino, pequeno, é o pedaço de chão que ninguém pisa.
Em dias de chuva gosta de ler. Escolhe um livro com um título apelativo e, mergulhada nas letras, é o espaço entre as folhas de papel.
Rita tem passos de lã e mãos de seda, o seu sorriso é o espaço entre os lábios e um beijo. Rita é aquela pequena distância entre o mundo e o mar, a fina camada que separa a alba do crepúsculo. Rita é o pormenor das coisas: a cor e a transparência.
na tua falta, as minhas lágrimas são rios de silêncio cansado.