um novo texto todas as terças, quintas e sábados.
há cerca de três anos escrevi o primeiro de cinquenta e cinco contos que viriam a compor aquele que seria o meu primeiro livro: o descompasso de um peito desfeito.
um ano depois do seu término reencontro-me com as suas páginas e todas as palavras me surgem inquietantemente diferentes, mas, ainda assim, minhas.
é por essa razão que abro mão de uma desadequada publicação em papel e as partilho aqui, convosco. aguardarei todos os vossos comentários com curiosidade e comoção.
desejo-vos uma boa leitura. obrigado.
meia noite e vinte e cinco: reparo agora que já não imagino a minha vida sem ti. e dito assim até parece poético, não achas?
aproxima-te
Beija-me devagar. Os dias levaram o jeito dos meus lábios e os meus lábios nunca foram muito ajeitados a tocar outros. E então? Beija-me como se houvesse tempo para saborear… começa devagar: sem começar. Só a sugestão, como se na distância entre o teu olhar e o meu fosse o início do beijo. E as mãos, a tocar-nos o rosto, a sua extensão. Faz do beijo o toque do nosso corpo numa aproximação lenta: o teu corpo em câmara lenta em direcção ao meu. Antes da tua boca deixa-me sentir o teu perfume, se eu fechar os olhos e tu fechares os olhos, de olhos fechados, o teu perfume pode ser o meu jardim. E a seres todas as flores do meu jardim, o meu jardim, a sentir o perfume de cada pétala, cada semente, cada poro da tua pele, toca os meus lábios com os teus como se de um beijo se tratasse. Fica assim por uns segundos, dos que são dias, anos, eternidades comprimidas àquele momento que é a tua boca na minha. Por fim, deixa o beijo, que é cada recorte do nosso corpo, ajustar-se ao calor um do outro, deixa-o encaixar-se até os nossos corações falarem ao mesmo compasso. Abre os olhos.
O que estavas a dizer?