uma folha caída sobre o inverno

um novo texto todas as terças, quintas e sábados.

há cerca de três anos escrevi o primeiro de cinquenta e cinco contos que viriam a compor aquele que seria o meu primeiro livro: o descompasso de um peito desfeito. um ano depois do seu término reencontro-me com as suas páginas e todas as palavras me surgem inquietantemente diferentes, mas, ainda assim, minhas. é por essa razão que abro mão de uma desadequada publicação em papel e as partilho aqui, convosco. aguardarei todos os vossos comentários com curiosidade e comoção. desejo-vos uma boa leitura. obrigado.




benjamim

a janela da cozinha tem vista para o jardim que fomos construindo aos poucos, dizes que as flores são coisas delicadas, requerem o seu tempo e todo o amor que se lhes pode dar.
tu estás na cozinha a preparar o jantar. tens o rosto iluminado pelos retalhos de luz vermelha que ainda rasgam a janela, do pôr-do-sol. eu, sobre a mesma luz, seguro ao colo o benjamim enquanto completa um puzzle de trinta e seis peças. o nosso filho tem o teu olhar.
sem aviso, o benjamim salta-me do colo e atira as peças do puzzle ao chão, desata a correr até à sala. ouvimos a sua voz de criança a imitar uma voz de cowboy: deve estar a brincar com os bonecos.
a cozinha, sossegada, é um chão de peças de puzzle, olhas-me com um ar reprovador. começo a apanhar as peças, peça por peça. poisas o tacho sobre o fogão e baixas-te para apanhares peças comigo, dizes baixinho não devíamos fazer-lhe as vontades todas, mimamo-lo demasiado.
eu olho-te nos olhos e penso que te amo mais do que o mundo.










vem viver comigo para o fundo do mar (é um pais de jardins em flor, meu amor.)