uma mala gasta curvada sobre uma viagem alheia.
amanhã ainda de madrugada serei empurrado para um destino longe dos braços dela, ficarei por lá cerca de uma semana, uma semana, certo: quatro a cinco t-shirts, dois pares de calças, outros tantos de calções, ajeito tudo dentro de uma mala gasta. a mesma mala onde agora embrulho a roupa tem ainda o cheiro do seu quarto, incenso de canela, parece-me.
um olhar mais atento sobre que roupa que falta. quase mecanicamente vasculho um pijama no interior do guarda-fatos e sem dar por isso cola-se às mãos, pela segunda semana consecutiva, uma camisola de algodão e poliéster com gatinhos e corações estampados, tento uma forma de a dobrar enquanto penso: o amor será isto, uma cuidada selecção de roupas entre aquilo que nos agrada e não desapontará a nossa cara metade. vejamos, ainda há duas semanas atrás a mesma camisola de pijama me implorou viagem e no entanto, consciente do meu destino e amor por ela ficou pelo guarda-fatos, hoje encontro-lhe um canto no meio da bagagem.
é ainda demasiado estranha esta organização despreocupada, é ainda estranho viajar para longe do seu coração, penso. penso tanto que me afogo na lentidão dos gestos fazendo e desfazendo uma viagem alheia até que o dia rompe forte pela janela e me cega.
com os olhos vendados pela luz alguém me arrasta pelo chão da casa em direcção ao carro.
em cima da minha cama está uma mala de viagem vazia, em volta meia dúzia de t-shirts, roupa interior e pares de calças, no chão uma camisola de algodão e poliéster com um estampado ridículo.