um novo texto todas as terças, quintas e sábados.
há cerca de três anos escrevi o primeiro de cinquenta e cinco contos que viriam a compor aquele que seria o meu primeiro livro: o descompasso de um peito desfeito.
um ano depois do seu término reencontro-me com as suas páginas e todas as palavras me surgem inquietantemente diferentes, mas, ainda assim, minhas.
é por essa razão que abro mão de uma desadequada publicação em papel e as partilho aqui, convosco. aguardarei todos os vossos comentários com curiosidade e comoção.
desejo-vos uma boa leitura. obrigado.
a mania típica e sobrenatural de um beijo.
um sorriso atravessou a já enamorada atmosfera que ao longo das últimas horas se criara no quarto - refúgio ténue de realidades e mentiras, casa das únicas certezas. sorri-te de volta e aproximei-me mais uma vez, pouco mais de vinte centímetros eram ainda a desajustada distância para os nossos beijos. não resisto a antecipar os teus lábios de seda na minha mente. só mais tarde me arrependeria, a tua boca é afinal inimaginável.
existe uma mão no rosto, a balançar entre os cabelos sedosos e o teu pescoço suave - toda a tua pele, amor, é suave - denunciam a ânsia das nossas bocas. por mais puras que se digam as antecipações, há torturas que não se merecem prolongar: os meus lábios caiem sobre os teus.
tudo morre à nossa volta. tudo flora à nossa volta ou nas nossas bocas países erguem-se ao acelerado ritmo do meu peito. encontrámos o nosso equador.
diálogo para uma viagem.
chove há horas mas nem todas as horas foram passadas em frente a esta mesa. televisão, cama, sofá, chão: olhos fixos no tecto, ainda assim, todas estas horas foram, isso sim, passadas pela ausência da tua companhia – a tua espera prolonga-se por cada fissura da casa onde habitamos e cada espera são tortuosos segundos entre
zapping ou nada e nadas mais ecos de uma casa vazia. chegas finalmente, encharcada pela tempestade. eu descanso sobre o cinzeiro o cigarro que já quase me consumia os dedos para te poder dedicar todo o espaço dos meus sentidos.
- estás toda molhada mulher, devias trocar de roupa. - atrapalhei-me.
- já vou joão! ainda agora entrei em casa, porque raio estás tu aí especado? não tens nada para fazer? - retorquiste. pausei-me de olhar fixo no teu cabelo molhado. - passaste o dia todo sem fazer nada de novo, não foi? esqueces-te que temos contas para pagar? o meu ordenado não chega para nos sustentar aos dois, quando é que arranjas um emprego? - as tuas sílabas não pareciam formar sentido na minha mente.
- gosto muito da forma como o cabelo cai sobre o teu rosto, faz-me lembrar os dias em que passeávamos à chuva, lembras-te maria? - sei que te lembras.
- estás doidinho? o que é que te deu!? - ripostaste.
- chegaram os resultados da clínica. - o médico arrastara-me há duas semanas atrás para uma sala de experiencias qualquer a fim das suspeitas de morte a espalhar-se pelos pulmões.
- joão? - preocupaste-te. - joão, o que diziam? - os teus olhos brilharam e senti as tuas mãos pousar as minhas, frias. até o teu frio me aquece o coração.
- está tudo bem, quer dizer, não vou morrer nos próximos tempos pelo menos, mas...
- mas o quê? - interrompeste.
- mas o tempo tem-me fugido entre os dedos. nem falo de cada cigarro, mas do tempo em que passamos em frente à tv ou todas as horas que se perdem com planos para sempre irrealizáveis. sabes maria, todos estes anos fomos sonhando imagens daquilo que queremos ser e da casa que gostaríamos de ter e olha para nós: resignámo-nos a este pedaço de casa e todos os malditos dias parecem um passo atrás nos planos que traçámos. não pintámos as paredes do quarto nem comprámos uma mobília decente porque seria melhor guardar o dinheiro para a nova casa, lembras-te? e todos os dias o tempo me foge entre os dedos... eu não quero morrer sem a mobília acertada, o que seria de mim se nos perdesse sem te ter dado tudo o que tenho?
- joão... a tua companhia é suficiente para eu ser feliz.
- não é disso que se trata, não vamos florear o assunto com acessórios, a verdade é temos investido tanto no nosso futuro que perdemos a noção que hoje é o dia que sempre desejámos, esqueceste-te? até eu perdi a conta às vezes em que te sussurrei ao ouvido que tudo o que queria era viver contigo e agora que vivemos juntos sussurro uma casa perfeita e no meio de tantos sussurros receio perder a voz um dia. é culpa minha, tudo isto é culpa minha, maria. sei bem que já devia ter percebido isto mais cedo, que nunca te devia ter impedido de comprar um novo tapete para o centro da sala nem uma televisão nova. desculpa-me. pega no pote das poupanças e vamos sair. primeiro a viagem a paris que sempre quiseste, o dinheiro que sobrar será para fazer desta casa o nosso lar. teremos uma lareira e o quarto mais bonito do mundo com uma cama larga e lençóis tão suaves quanto as tuas mãos.
- as minhas mãos não são suaves... - tropeças enquanto coras.
- ...e podemos fazer da dispensa uma biblioteca, sabes como querias uma biblioteca? jã não precisamos de ter os livros em caixas, sim? vamos? - o teu rosto ainda embaraçado e quase perdido fixa o olhar no meu e finalmente sorri.
- vamos sim. - corres até ao quarto e desencantas um pote com dinheiro, escondido debaixo da cama.
após uma viagem com alguns percalços e as tuas mãos de seda a florirem pelas ruas de paris regressamos à nossa casa. um quarto atarracado e uma sala com vista para a cozinha têm mais cor que nunca, mas o senhorio forçou-nos aos despejo por perigo de colapso da estrutura base da casa. vivemos num hotel agora, já pintámos as paredes.
a selva do teu quarto.
longas heras trepam pelas paredes brancas, três joaninhas e uma borboleta parecem ter encontrado uma casa entre as folhas que semeaste. eu plantei-me há horas no meio do teu quarto, de um lado uma selva irrequieta, do outro milhares de janelas para o passado são a tua imagem fixa num papel brilhante.
eu plantei-me há horas no meio do teu quarto e não sei a que país pretencem estes lábios que me descem pelo corpo. pequenos ovni's. o meio do teu quarto torna-se muito rapidamente, vergado à força avassaladora dos teus beijos, o centro de um turbilhão sem selvas nem janelas, sem passados ou futuros. júlio verne estava errado quando achou que escavando chegava ao centro da terra, sei-o agora quando as pontas dos teus dedos deslizam pelo meu rosto: sem espaço para qualquer dúvida de que o centro do mundo está entre as tuas mãos e um par de beijos.