uma folha caída sobre o inverno

um novo texto todas as terças, quintas e sábados.

há cerca de três anos escrevi o primeiro de cinquenta e cinco contos que viriam a compor aquele que seria o meu primeiro livro: o descompasso de um peito desfeito. um ano depois do seu término reencontro-me com as suas páginas e todas as palavras me surgem inquietantemente diferentes, mas, ainda assim, minhas. é por essa razão que abro mão de uma desadequada publicação em papel e as partilho aqui, convosco. aguardarei todos os vossos comentários com curiosidade e comoção. desejo-vos uma boa leitura. obrigado.




subi a rua. a rua era calma.

Trinta minutos depois das oito, a hora limite para regressarmos a casa - o teu padrasto decidira cozinhar hoje e queria todos à mesa, eu tinha os restos do almoço no microondas que faria a refeição da noite -, despedimo-nos um do outro, com um abraço de doze minutos e alguns segundos. Não os contei mas marcavam-se no relógio majestoso da Sé, os pombos irrequietos expeliam sobre ele atenção.

Subi a rua até casa, entre o sítio de onde te vi pela última vez até minha casa é sempre a subir, o passeio é calcetado a granito e desenhos geométricos, o granito é irregular e propício a quedas de passos menos cautelosos. A rua é silenciosa como em poucas noites e nem as pedras parecem perturbar o relato do televisor que salta das tascas: é um resultado pouco feliz, esperemos que a equipa possa conseguir um melhor resultado quando jogar em casa.

Um misto de apreensão e tristeza transpira das rugas dos telespectadores. Não há nada que leve tantos homens de barriga inchada acumularem-se em silêncio à frente de um televisor.

Caminho mais um pouco até casa, sempre sem parar, começo a ficar com fome.

A voz do televisor continua demasiado monocórdica para a ocasião: os jogos de futebol são sempre celebrados com desmedido entusiasmo por parte do relatador, este não. Três homens pousam os cotovelos sobre o balcão, entediados. Por detrás do balcão, o dono do sítio limpa um copo de vidro com um pano cheio de nódoas, fixa o olhar no televisor. Existe um televisor em cada tasca, todas as tascas têm a mesma sintonia. A sintonia do televisor assombra a rua quieta, sombria, interminável.

Os meus passos tornam-se pesados e um súbito receio de caminhar começa a crescer em mim, a voz do relatador, descrente, vai-me engolindo o corpo e balança-o lentamente num passe de bola, num corte para fora.

Remate ao lado, ouve-se, a rua numa resposta rápida suspira, murmura, refila. A rua cada vez mais irada grita calúnias e ao terminar o jogo a rua quer crucificar alguém pela derrota do Benfica, os jogadores até se portaram bem a jogar no estrangeiro e o maldito do árbitro roubou uma justa vitória à nação - o que torna perfeitamente justificável desejo de ver a sua cabeça espetada num pau.

O jogo que ainda no início da rua era de apreensão tornou-se num desejo de sangue incontrolável. Saem homens à rua com foices e machados na mão erguidos para o céu, uivam insultos a um tal Mike Riley, ágeis, juntam-se numa massa concisa e movem-se como um cardume. O ódio é um excelente interesse de união e com o erguer de um boneco de palha vestido de preto, rompem gritos de raiva: arde, arde, arde. Acima das cabeças da multidão surgem agora ancinhos e tochas revoltadas que rapidamente tornam o espantalho numa magnífica bola de fogo que o céu estica para si: as mãos do céu a agarrarem as pontas da chama e alongarem-na a metros longos do chão.

Eu, que entretanto me encostara a uma parede receoso que caísse sobre mim os dentes de um qualquer ancinho, juntei coragem para acabar os dez minutos - calculados à pressa e sobre a pressão de tiras de fogo a serem vomitadas por um árbitro em chamas - até casa. Respirei fundo e caminhei sobre a calçada de granito, devagar. Os vidros reflectiam o fogo das tochas e a raiva dos machados, eu caminhei não fosse um reflexo, ainda que distante, disparar um golpe certo sobre a minha garganta. Por fim, as vozes foram afastando-se, provavelmente em direcção ao centro da cidade onde estariam mais três ou quatro estátuas de palha à espera de um destino digno dos olhos em fúria.

Ao chegar a casa liguei o microondas e pensei que preferia fazer a refeição contigo, tinha comida para dois.







o sítio de lá.

A noite caía extensa sobre os campos de milho e eu, de dentro do teu carro, olhava o caminho que os faróis iluminavam. Metros de estrada surgiam repetitivos à nossa frente. Faltavam ainda cinco minutos para chegarmos à cidade, eu pensava que esse dia tinha sido longo, os teus olhos cansados, vagos, a olhar fixos a estrada diziam num tom quase indecifrável o dia foi longo Luís. Conscientes que o dia tinha sido longo continuámos sem dizer uma palavra.

Entre o tempo em que olhávamos a estrada enquanto vasculhávamos respostas no peito de cada um, surgiam pequenas luzes no horizonte. Depois muitas luzes e pequeninos pontos a desenharem a forma de prédios, com o velocímetro nos oitenta a cidade à nossa frente desenhara-se cuidadosamente até ser uma cidade maior que um polegar, maior do que a mão, maior do que nós os dois, gigante. Ao entrarmos na cidade, lembro-me de por momentos o meu dia longo parar e me deliciar com as luzes dos candeeiros a brincarem no teu rosto, lembro-me do reflexo dos teus cabelos pretos a ganhar todas as cores do espectro visível, o teu cabelo foi um mar de cores, por vezes ainda é, Joana.

Tardámos em estacionar o carro, o problema das cidades é que por mais que se procure um lugar vazio os condomínios enchem cada pequeno espaço. Saí do carro e fechei a porta, saíste do carro fechaste a porta e rodaste a chave. Calçavas saltos altos - uns sapatos pretos como a extensão das tuas pernas faziam-te crescer pelo menos meia dúzia de centímetros. Um vestido azul às riscas pretas diagonais delineava o teu corpo. O teu corpo segurava o teu rosto, o teu rosto segurava um sorriso que começara agora a crescer, são os ares da cidade. Dei-te a mão e a leres os meus pensamentos a tua boca disse, vamos lá meu anjo.

Nós fomos lá mas não me recordo dos pormenores. Sei por dedução que estivemos lá. Que provavelmente não largámos a mão - pois sei que dar-te a mão seria algo da que não abdicaria sem mais nem menos -, que nos divertimos, que naquele tempo de estarmos lá esquecemos os problemas de um dia longo e sorrimos.

Lembro-me sim, de voltarmos um ao lado do outro, ainda a sorrir de um dia curto. Abriste a porta e eu abri a porta, sentámo-nos e fechámos as portas do teu carro. O teu carro está velho, quase caiu o retrovisor. Ao sair da cidade o teu cabelo que é todas as cores do mundo foi apenas um detalhe entre o teu sorriso e um olhar resplandecente; se naquele momento a luz deixasse de existir, poder-te-ia encontrar pelo rasto de brilho que o teu olhar desenharia no ar.

Chegámos à porta de minha casa, paraste o carro. Eu pensei que aquele era o momento em que dizemos até depois e nos despedimos com um beijo. Tu deste-me um beijo no rosto. Eu dei-te um beijo no rosto e disse até depois. Dei-te outro beijo no rosto. Às vezes exagero. Dei-te, a prometer-me naquele instante, um outro beijo no rosto que seria o último beijo da noite e sai do carro, fechei a porta. Pensei que és bonita.

Ao ver os faróis encarnados do teu carro tornarem-se cada vez mais pequenos e pequenos, o meu dia cresceu. Cresceu mais um pouco e esticou-se por cada músculo do meu corpo, por cada bocadinho de mim até quase não saber caminhar.














O DESCOMPASSO DE UM PEITO DESFEITO




CAPÍTULO I

A AVIDEZ DA ROTINA





























óregão.

comia esparguete para o jantar quando suspendi o garfo a poucos centímetros da boca. lembrara-me de como as refeições cozinhadas por ti tinham sempre mais paladar, uma questão de condimentos em medidas certas, penso.
surges sempre assim, espontânea e inesperada.







quebra.

é sempre a noite a iniciar as palavras,
a pesar no dorso e a quebrar a coluna.
é sempre um olhar incompleto sobre
o céu escuro e uma mão quebrada
que principia a cadência da voz até
que toda a música silencie, quieta.
é sempre no leito de morte que
chovem todas as verdades, como
pedras. depois, estendida no chão,
overdose de epifanias, vejo o mundo
nascer de novo e o sol é afinal
nevoeiro.