uma folha caída sobre o inverno

óregão.

comia esparguete para o jantar quando suspendi o garfo a poucos centímetros da boca. lembrara-me de como as refeições cozinhadas por ti tinham sempre mais paladar, uma questão de condimentos em medidas certas, penso.
surges sempre assim, espontânea e inesperada.







quebra.

é sempre a noite a iniciar as palavras,
a pesar no dorso e a quebrar a coluna.
é sempre um olhar incompleto sobre
o céu escuro e uma mão quebrada
que principia a cadência da voz até
que toda a música silencie, quieta.
é sempre no leito de morte que
chovem todas as verdades, como
pedras. depois, estendida no chão,
overdose de epifanias, vejo o mundo
nascer de novo e o sol é afinal
nevoeiro.







figueira da foz, coimbra.

percorremos quilómetros. a paisagem é um pano de cenário breve. há árvores a debruçarem-se sobre os olhos, estradas largas e constantes. a minha mão repousa sobre a tua, na alavanca das mudanças, ficaria para sempre no lugar do morto.







e se a morte é óbvia,
os meus passos serão sempre
certos.







é terno o teu regresso certo.

serei o teu melrinho, mas não te escapas às exigências, dona. três bondosas refeições por dia, cama lavada e a tua companhia, na cama e no resto do quarto e da casa. permito-te algumas horas fora, ficarei a pensar em ti, mas no tempo do teu retorno quero beijos e um carinho, se estiveres bem disposta quero muitos carinhos, se não estiveres cuidarei de ti. poderei compor odes à tua beleza ou desenhos atrapalhados na definição dos teus traços enquanto aguardo a tua presença no meio destas paredes - todos os momentos por muito solitários que queiram parecer não passarão de ilusões. é terno o teu regresso certo.
agora gelam-me os dedos, é mais uma daquelas pausas que faço de respirar - gostas desta metáfora, meu amor de dona? é uma forma de dizer que agora te encontro ausente e te aguardo, faltam poucos minutos -, mas nenhum frio é inteiramente desconfortável se há distância de curtas horas o teu corpo quente são as minhas mãos quentes, e não me venham com provérbios de gente pobre, mãos quentes, amor, é o meu coração quente, junto do teu.